Congresso de Direito Tributário começa amanhã em Curitiba

ago 07, 2018 by ietrecbr in  Uncategorized

Começa nesta quarta-feira (8/8), a partir das 8h30 na sede da OAB Paraná (Rua Brasilino Moura, 253 – Ahú), o IX Congresso de Direito Tributário do Paraná. Esta edição tem como tema “Tributação na era Digital e Colaborativa” e vai abordar temas que geram incerteza devido às inovações e a velocidade na divulgação das informações.

As conferências e palestras terão cobertura divulgada pelo site do evento e pelas redes sociais. Os interessados no assunto poderão acompanhar por esses canais os pontos mais relevantes abordados e um resumo do que os convidados vão expor durante suas participações.

Tecnologias e tributação: ficção científica ou realidade?

ago 08, 2018

O painel “Tributação Municipal e Novas Tecnologias”, parte do primeiro dia de programação do IX Congresso de Direito Tributário do Paraná, com mediação de Giovana Treiger Grupenmacher, trouxe preocupações relativas à tributação de programas de computador, de transações com criptomoedas e da veiculação de publicidade online.
De acordo com os palestrantes, são questões que trazem grande potencial de dúvidas, como em relação à tributação de serviços de streaming: seria esse um produto de telecomunicações ou uma prestação de serviço? E mais: na venda de um software, há cessão de uso ou transferência de propriedade intelectual?
Quanto a esse tema, o doutor José Eduardo Soares de Melo trouxe conceitos técnicos relativos ao funcionamento de softwares, ressaltando ainda que “não basta inserir um produto ou serviço numa norma tributária: é importante sabe ser essa norma tem fundamento”.
Considerando que o software é um bem imaterial, pertinente ao trabalho intelectual e com natureza jurídica de direito autoral, ele defende que não se trata de mercadoria, já que não se vende o suporte, que é um meio para se atingir um fim.
Com efeito, desde 2003 a lista de do ISS arrola serviços de informática e programas de computador, ratificando a visão de que não se trata de bem material. Mesmo assim, surgem questionamentos. No ano passado, foi celebrado um convênio do ICMS que procura abranger todas as atividades informáticas, mas que não trata da circulação e transferência de titularidade. “Entendo que se trata de cessão de direito de uso, e portanto não deveria incidir o ISS. Também não cabe a incidência de ICMS.”
Entrando na seara das criptomoedas, o advogado Gustavo Brigagão defende que o blockchain (sistema de transações com moedas virtuais) não configura prestação de serviço: a atividade tipificada que mais se aproxima seria o processamento de dados, mas essa não é a atividade fim nesse caso. “Quando examinei como se dá a atividade do blockchain, não consegui ver atividade passível de tributação, afora o acréscimo de renda pela Receita Federal.”
Fazendo uma breve explanação sobre o tema, o palestrante explicou que o blockchain funciona como um livro-razão digital, completamente descentralizado. Ali são validadas, quotificadas e armazenadas as mais diversas transações, e uma senha valida as transações, sendo que cada uma representa um “elo” da cadeia.
“Ao analisar, pensei: é o primeiro passo para a dominação do homem pela máquina, pois tudo é feito de forma totalmente automática”, diz Brigagão.
Por mais que para alguns soe como ficção científica, o palestrante alertou para que não se subestime a importância dessa inovação financeira. “Preparem-se: esse é o futuro. Tudo ocorrerá na plataforma do blockchain, o que vai gerar grandes dificuldades, alerta Brigagão. Ele lembra que, de acordo com o Fórum Mundial, 10% do PIB internacional será resultado de atividades no âmbito do blockchain dentro de nove anos.
Outra questão do mundo digital cujo entendimento tributário gera polêmicas é a incidência sobre publicidade e propaganda, tema trazido pelo advogado André Mendes Moreira.
Ele contou que teve a oportunidade de participar da redação da lei que trouxe para a listagem do ISS a “inserção de publicidade e propaganda em qualquer meio, salvo naqueles que se beneficiam de imunidade constitucional”. Essa legislação veio para suprir uma lacuna jurídica que por mais de uma década causou inúmeras autuações.
“Os anúncios são hoje adaptados aos nossos interesses na internet. Mas dependem da conexão. Tanto o Google como o Facebook são como nós, usuários de telecomunicações, com a diferença de algumas centenas de bilhões de dólares”, explicou Moreira.
Todas essas questões esbarram num fato destacado por Brigagão: “O sistema tributário foi preparado para um mundo completamente diferente do que vivemos hoje em dia”.

A complexidade do Simples Nacional em debate

ago 08, 2018

“De simples, o Simples Nacional não tem nada”, resumiu Inaiá Nogueira Queiroz Botelho ao anunciar o painel sobre o tema no IX Congresso de Direito Tributário do Paraná, por ela moderado. A advogada Nayara Sepulcri de Camargo Pinto falou sobre a adequação dos estados da federação brasileira ao novo Simples, com a Lei Complementar 155/2016. “São enquadráveis no Simples Nacional 99% das empresas brasileiras. Se descontarmos os microempreendedores ainda assim os números impressionam: 3 de cada 4 Pessoas Jurídicas podem ser enquadradas no Simples. É um campo enorme e o gigantismo não está só no volume de empresas, na movimentação financeira e nos empregos gerados. O Simples é gigante também no campo do Direito”, explicou.
O aumento dos limites de enquadramento e a mudança nas faixas de tributação são as principais mudanças advindas da LC 155/2016. “Foi uma das grandes bandeiras do projeto que se converteu em lei complementar. Mas para a última faixa de tributação, na nova tabela, perdeu-se o regime especial para o ISS e o ICMS nos âmbitos municipal e estadual. Ou seja, a lei complementar foi avanço com sabor de retrocesso”, explicou a advogada.
“Em suma, persiste no cenário nacional uma profunda fragmentação do Simples. Tanto pela dualidade de regimes na faixa final quanto pelas diferentes tabelas em nível estadual, como ocorre no Paraná, no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul”, concluiu.

Operações interestaduais

Carlos Renato Cunha seguiu com reflexões sobre o Simples, tratando das operações interestaduais contempladas pelo Decreto 442/2015, do Paraná. “O Simples Nacional é como um portal mágico para um mundo com um regime tributário diferente. Essa norma pode até ser benéfica, mas é deformada”, provocou.
“É difícil encontrar fundamento legal para a antecipação de ICMS nas operações de compras interestaduais. Isso porque a tributação está sendo feita na entrada do produto e o fato gerador é a saída. Difícil adequar o mundo real a essa visão do legislador”, completou.
Cunha lembrou ainda que há uma Ação Direta de Inconstitucionalidade ajuizada pela OAB Paraná para questionar o Decreto 442/2015, do Estado do Paraná, que trouxe novas regras para recolhimento de ICMS em operações interestaduais. Por meio da ADI) 5425, a OAB Paraná pede cautelar para suspender a eficácia da norma e, no mérito, a declaração da sua inconstitucionalidade.
A nova norma gerou um aumento imediato da carga tributária para os contribuintes optantes do Simples Nacional, pois o ICMS antecipado não está abrangido no valor a ser recolhido mensalmente de forma unificada. Para Cunha “falta coerência sistêmica” no Simples Nacional.

Indústria 4.0

A professora Maria de Fátima Ribeiro tratou de tributação, concorrência e novas tecnologias. “Estamos passando pela indústria 4.0, que envolve AI (inteligência artificial), IoT (internet das coisas) e muitos outros aspectos. O Brasil está em 64º lugar no ranking geral da inovação. Nossas universidades, por exemplo, estão ainda com o ensino 2.0”, apontou.
Há desafios a serem enfrentados nessa fase de transição entre a economia tradicional e a disruptiva-colaborativa, disse ela. Além da tecnologia, dos incentivos e dos investimentos, a redução da burocracia também precisa surgir. “Apesar da melhora nos últimos três, quatro anos, ainda é grande a dificuldade para abrir empresas no Brasil”, completou.
No aspecto legislativo, é preciso haver uma adequação. “Recentemente a professora Betina Grupenmacher publicou um artigo afirmando que é preciso ir além da mudança da legislação ordinária, alterando inclusive aspectos constitucionais. Temos muitas questões a serem discutidas para que a economia 4.0 seja uma realidade no Brasil e para que não percamos o bonde da história”, defendeu.

Anistia tributária

Heloísa Guarita Souza tratou dos programas de anistia tributária que oferecem parcelamentos ordinário e parcelamentos especiais, com regras excepcionais de concessão e adesão. “No âmbito federal, tais programas estão contemplados na Lei 10.522/2002”, disse a professora citando também leis estaduais e municipais.
“Não tem como negar. É impressionante: todos esses programas oferecem redução de multa e juros, prazos estendidos, possibilidade de uso de crédito tributários. O Brasil é imbatível na amplitude dos parcelamentos concedidos em programas de anistia tributária”, analisa Heloísa.
Para a professora, os parcelamentos especiais são uma boa oportunidade para que os contribuintes resolvam suas pendências tributárias de modo menos onerosa. “Os programas já encerrados criam inclusive a expectativa de que outros surjam, afetando o comportamento do contribuinte. Assim, não podemos ignorar que essa frequência dos programas acaba estimulando o comodismo de alguns e estabelecendo uma injustiça com o contribuinte que se emprenha em pagar tudo em dia”, apontou.
Lembrando do fato de que os programas não elevam a arrecadação, a professora destacou que é preciso romper esse círculo vicioso, voltando ao equilíbrio com a adoção excepcional, e não corriqueira, dos programas.

Precatórios

Rodrigo Kanayama encerrou o painel com uma apresentação sobre quitação de tributos com precatórios. “Estamos hoje em um regime especial que cria uma compensação própria nos artigos do ADCT”, disse.
Com as emendas 94 e 99 para solucionar a dívida, temos novas preferências. Há preferência para pagamento para pessoas com necessidades especiais, além dos idosos e doenças graves. Kanayama lembrou ainda que há limites de endividamento para cada ano, para todos os entes.

Atualização jurídica pode evitar cobrança dupla

ago 08, 2018

“O comércio eletrônico facilitou muito a vida, mas aumentou a complexidade do direito”, afirmou a professora Simone Barreto (Ibet), ao abrir o painel “Tributação Estadual e Tecnologia”, durante o IX Congresso de Direito Tributário do Paraná. Essa foi a tônica da tarde desta quarta-feira, quando se destacaram problemas identificados no recolhimento de impostos advindos das vendas online.
A jurista defende a incidência de ICMS sobre bens incorpóreos, lembrando que caminhamos para a venda cada vez mais volumosa de bens na forma digital.
“Temos nitidamente o aumento da fiscalização para o comerciante remetente das mercadorias”, salienta Simone. Cada estado tem colocado seus critérios para definir se uma operação é interestadual, o que pode resultar até mesmo em dupla cobrança.
O risco de dupla cobrança também foi abordado pela professora Karem Jureidini Dias (GVLaw, Ibet) ao abordar a especificidade da tributação dos provedores de internet. “É importante que as contas dos provedores tragam valores discriminados, senão podemos sofrer dupla tributação.”
O professor Tácio Lacerda Gama (PUC-SP) destacou a necessidade de uma abordagem teórica dessas matérias, para que não se fique refém de tributos. “A exemplo do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que já retirou milhões da sociedade porque não há adequada argumentação sobre o que está acontecendo”, salientou.
Em relação à tributação de softwares que operam na nuvem (serviços completos que fornecem servidor, conectividade e segurança online), Gama destacou o risco de se abrir mão de categorias consolidadas na jurisprudência.
Também chamados de “software as a service” (SAAS), esses programas seriam mercadoria, serviço ou locação? “É imprescindível que se adapte a legislação, sob pena de se transformar tudo em mercadoria ou tudo em serviço”, salientou.
“Não temos direito de abrir mão de categorias consolidadas na jurisprudência diante de algo que demanda complexidade inédita.”
Eduardo de Moraes Sabbag (Mackenzie-SP) trouxe questões relacionadas à imunidade, a exemplo da imprensa, e à tributação de bens digitais.
“Diante da mudança de paradigmas na difusão de informação, torna-se necessária uma interpretação constitucional que atualize o discurso do constituinte.”
Um exemplo é o conceito de “livro”, bastante transformado ao longo do tempo, e que estaria citado na Constituição como veículo de ideias, não apenas em seu suporte físico em papel.
A jurisprudência decisiva veio em 2017, em julgamento do STF relativo à incidência de ICMS na venda de CDs de uma enciclopédia. Na ocasião, foi chancelada a imunidade tributária para livros eletrônicos, audiolivros, CD-ROMs de livros e leitores digitais.
O futuro esteve presente em todas as falas da tarde, culminando com o regime tributário dos carros elétricos. O tema é extremamente atual, tendo sido motivo de nova legislação em julho de 2018, ainda por entrar em vigor.
Em relação a isso, André Parmo Folloni (PUC-PR) destacou como as mudanças na lei seguem a evolução tecnológica. Até agora, os carros híbridos tinham alíquotas relacionadas à cilindrada do motor. Isso mudou, envolvendo um cálculo envolvendo a eficiência energética e a massa do carro.
“O peso da indústria automobilística no PIB brasileiro traz uma situação paradoxal. A nova tributação visa resolver esse problema”, destacou.

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