Tecnologias e tributação: ficção científica ou realidade?

ago 08, 2018 by ietrecbr in  Uncategorized

O painel “Tributação Municipal e Novas Tecnologias”, parte do primeiro dia de programação do IX Congresso de Direito Tributário do Paraná, com mediação de Giovana Treiger Grupenmacher, trouxe preocupações relativas à tributação de programas de computador, de transações com criptomoedas e da veiculação de publicidade online.
De acordo com os palestrantes, são questões que trazem grande potencial de dúvidas, como em relação à tributação de serviços de streaming: seria esse um produto de telecomunicações ou uma prestação de serviço? E mais: na venda de um software, há cessão de uso ou transferência de propriedade intelectual?
Quanto a esse tema, o doutor José Eduardo Soares de Melo trouxe conceitos técnicos relativos ao funcionamento de softwares, ressaltando ainda que “não basta inserir um produto ou serviço numa norma tributária: é importante sabe ser essa norma tem fundamento”.
Considerando que o software é um bem imaterial, pertinente ao trabalho intelectual e com natureza jurídica de direito autoral, ele defende que não se trata de mercadoria, já que não se vende o suporte, que é um meio para se atingir um fim.
Com efeito, desde 2003 a lista de do ISS arrola serviços de informática e programas de computador, ratificando a visão de que não se trata de bem material. Mesmo assim, surgem questionamentos. No ano passado, foi celebrado um convênio do ICMS que procura abranger todas as atividades informáticas, mas que não trata da circulação e transferência de titularidade. “Entendo que se trata de cessão de direito de uso, e portanto não deveria incidir o ISS. Também não cabe a incidência de ICMS.”
Entrando na seara das criptomoedas, o advogado Gustavo Brigagão defende que o blockchain (sistema de transações com moedas virtuais) não configura prestação de serviço: a atividade tipificada que mais se aproxima seria o processamento de dados, mas essa não é a atividade fim nesse caso. “Quando examinei como se dá a atividade do blockchain, não consegui ver atividade passível de tributação, afora o acréscimo de renda pela Receita Federal.”
Fazendo uma breve explanação sobre o tema, o palestrante explicou que o blockchain funciona como um livro-razão digital, completamente descentralizado. Ali são validadas, quotificadas e armazenadas as mais diversas transações, e uma senha valida as transações, sendo que cada uma representa um “elo” da cadeia.
“Ao analisar, pensei: é o primeiro passo para a dominação do homem pela máquina, pois tudo é feito de forma totalmente automática”, diz Brigagão.
Por mais que para alguns soe como ficção científica, o palestrante alertou para que não se subestime a importância dessa inovação financeira. “Preparem-se: esse é o futuro. Tudo ocorrerá na plataforma do blockchain, o que vai gerar grandes dificuldades, alerta Brigagão. Ele lembra que, de acordo com o Fórum Mundial, 10% do PIB internacional será resultado de atividades no âmbito do blockchain dentro de nove anos.
Outra questão do mundo digital cujo entendimento tributário gera polêmicas é a incidência sobre publicidade e propaganda, tema trazido pelo advogado André Mendes Moreira.
Ele contou que teve a oportunidade de participar da redação da lei que trouxe para a listagem do ISS a “inserção de publicidade e propaganda em qualquer meio, salvo naqueles que se beneficiam de imunidade constitucional”. Essa legislação veio para suprir uma lacuna jurídica que por mais de uma década causou inúmeras autuações.
“Os anúncios são hoje adaptados aos nossos interesses na internet. Mas dependem da conexão. Tanto o Google como o Facebook são como nós, usuários de telecomunicações, com a diferença de algumas centenas de bilhões de dólares”, explicou Moreira.
Todas essas questões esbarram num fato destacado por Brigagão: “O sistema tributário foi preparado para um mundo completamente diferente do que vivemos hoje em dia”.

Desembargador Paulsen aborda os efeitos tributários das delações premiadas

ago 10, 2018

O desembargador Leandro Paulsen, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, tratou dos efeitos tributários de delações premiadas e acordos de leniência em sua apresentação no IX Congresso de Direito Tributário do Paraná. Antes de entrar no tema propriamente dito, o magistrado lembrou que a jurisdição não se faz no Supremo Tribunal Federal (STF), exceto nos casos de competência originária. “Se houver um passo atrás na decisão em relação à pena de prisão após a decisão de segundo grau, podemos entregar os pontos”, afirmou.
Tratando dos acordos de leniência, Paulsen lembrou que a colaboração premiada é fundamentada na cooperação para elevar a eficácia da investigação em troca da redução de sua pena. A ideia, sublinhou, é chegar nos líderes da organização, para que se consiga chegar ao domínio do fato. Um dos pressupostos para outorgar benefícios, portanto, é que efetivamente a pessoa esteja disposta a colaborar, rompendo com a lei do silêncio e revelando o que está ao seu alcance de maneira irrestrita e plena.
“Quando os que fecham acordos de colaboração premiada estão dispostas a falar, revela-se o poderio econômico das atividades criminosas e como se dá a lavagem do dinheiro. A partir daí, revelam-se atos econômicos que podem caracterizar fatos geradores de tributos”, detalhou.

Prova

Para o desembargador, os depoimentos dos acordos de delação premiada não equivalem à palavra de um informante, como defendem alguns. “O depoimento do acordo é, sim, uma prova porque tomado diante do compromisso de trazer fatos sob as penas da lei”, pontuou, ressalvando que, de acordo com a Lei de Organização Criminosa, a palavra do delator não é elemento exclusivo para a condenação. “São provas testemunhais que precisam ser corroboradas e robustecidas com elementos materiais e outras provas”, afirmou.
Também o Fisco também tem o dever de buscar evidências dos fatos geradores de tributos mencionados nos depoimentos obtidos em acordos de delação premiada. “As autoridades fiscais vão olhar para a delação como um indicador do que é preciso ser investigado. Aliás, como deve ocorrer em qualquer ação fiscal”, sublinhou.

O meio ambiente e a geração de riquezas

ago 09, 2018

O desenvolvimento sustentável foi debatido na manhã desta quinta-feira no IX Congresso de Direito Tributário do Paraná. A partir de sua experiência em grupo de estudos no Ceará, Denise Lucena Cavalcante trouxe dados e debates a respeito da tributação das fontes solares.
O incentivo à energia solar está crescendo no país, mas há uma série de questões prementes. Por exemplo, o setor produtivo questiona se deve-se ou não reduzir o imposto de importação das placas solares, e por enquanto não há concordância sobre produzir ou importar esse material.
“Temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, e paradoxalmente uma das mais caras”, lamenta Denise. Em geral, o meio ambiente se tornou um tema fundamental na área tributária, devido ao conceito de sustentabilidade. Mas, para fomentá-la, é preciso combater a ignorância. Um exemplo: pouca gente sabe que a energia solar não depende da incidência do calor, e sim da luz. Portanto, mesmo os estados mais frios têm potencial de produção.
A energia eólica também tem grande potencial em todo o país, conforme abordou Eduardo Rodrigues. “Aos poucos, o Brasil ganha condições de mudar sua matriz. Somos potência naquilo que o mundo precisa. E o direito tributário não pode ficar inerte quanto a isso.”
Já foram criados instrumentos de indução dessas fontes energéticas, com desconto no Imposto de Renda e convênios de ICMS que estimulam a energia limpa – apesar do lobby de indústrias concorrentes. “A energia eólica não é necessariamente uma rival da hidrelétrica”, salienta Rodrigues.
“Não é com royalties sobre o vento que o Brasil vai enriquecer, e sim reduzindo a tributação sobre a geração de riqueza. Proponho como fator de indução de desenvolvimento a redução da tributação na geração e a alteração da forma como se tributa no país.”
Outro recurso que surge para estimular o desenvolvimento sustentável é o ICMS ecológico, questão abordada pelo jurista Leonardo Sperb de Paola. Esse estímulo fiscal existe no Paraná não como isenção, e sim como repasse feito pelo estado aos municípios vinculados à proteção de mananciais hídricos e preservação de unidades de conservação.
“O grande problema do ICMS ecológico é que não se trata de um recurso adicional, e sim um recurso que pertence aos municípios, de acordo com a Constituição.”
Numa abordagem mais generalista, o professor Juarez de Freitas trouxe para a mesa conceitos do novo capitalismo. “A economia que faz sentido daqui para a frente é a intangível, então temos que tomar muito cuidado para não termos uma tributação que iniba o crescimento desse novo patamar do capitalismo sem capital (tangível).”
Uma das questões relacionadas a esse tema é a incidência de imposto provisório, algo já proposto na Europa. Na opinião de Freitas, precisamos, pelo contrário, de políticas que incentivem o alcance das medidas de desenvolvimento. Lamentavelmente, não é essa a perspectiva do futuro próximo no Brasil. “Os candidatos à Presidência estão trabalhando com um tipo de economia que não existe mais.”

Cooperativas querem tributação justa

ago 09, 2018

A tributação das cooperativas foi tema na manhã desta quinta-feira do IX Congresso de Direito Tributário do Paraná. Como resume a mediadora Ana Paula Rodrigues, essas entidades não querem isenção de impostos, e sim uma tributação justa.
O advogado Saul Leal defende uma visão holística a respeito do assunto, que enxergue essas entidades a partir de seu valor e finalidade, da missão institucional e de seu objeto social. A visão desse “soldado em Brasília da causa cooperativista”, na definição da mediadora, é a de que, mais do que investigar cada ato das cooperativas, o dever do legislador seria garantir que seja atingido o crescimento de todos os seus membros. “Que haja fidelidade ao seu caráter mutualista, para que elas não se transformem em empresas”, diz Leal.
A especificidade das cooperativas médicas foi abordada por Josiane Minardi, tema que tem sido motivo de grande preocupação quanto à expectativa de decisões pelo STF. Questão que preocupa a classe médica e jurídica é o recolhimento de ISS, desde que lei complementar de 2016 estabeleceu o recolhimento no local da prestação de serviço e não do estabelecimento do prestador. “Eu defendo a causa de que o ISS pode, sim, ser mantido para os municípios tomadores dos serviços dos planos de saúde”, explica Josiane.
O tema das cooperativas “mexe muito com o sentimento de prosperidade, de agregação entre pessoas e da diminuição da desigualdade social”, na opinião da jurista Stael Freire. Apesar disso, a especificidade das cooperativas de crédito ainda é pouco debatida, com pouca doutrina e legislação estabelecidos.
Para se fazer um breve panorama, o Nordeste do país é onde elas estão menos representadas. Nacionalmente, há dois bancos cooperativos e quatro confederações, 969 cooperativas singulares e 34 centrais.
Todas elas colaboram com a inclusão financeira, na opinião da jurista. Como exemplo, há 626 municípios brasileiros atendidos exclusivamente por esses bancos cooperativistas.
As cooperativas de crédito estão avançando muito em relação ao sistema financeiro brasileiro, mas é necessário que se possa alcançar uma tributação justa e adequada, assim como já foi feito em relação às cooperativas médicas.
Rogério dos Santos Croscato trouxe a questão das cooperativas agrícolas, fortemente representadas no Paraná, com 220 entidades filiadas ao sistema Ocepar, reunindo 1,5 milhão de cooperados.
O ICMS incide sobre a venda dos produtos agrícolas das cooperativas e o consumidor final arca com esse custo, da mesma forma como ocorre com outras empresas individuais.
“O maior desafio é reduzir o acúmulo de crédito do ICMS nas cooperativas agrícolas,” diz Rogério Croscato, algo que ocorre devido à guerra fiscal, industrialização dos bens produzidos, entre outros itens.

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